A remoção de facetas cerâmicas e bráquetes com pontas diamantadas rotatórias desgasta o esmalte e agride a polpa dental. O desgaste mecânico rotatório induz microfissuras na estrutura dental, altera o contorno anatômico natural e exige longos períodos de acabamento clínico. Em contrapartida, os lasers de érbio representam uma alternativa fotoablativa sem contato físico, capaz de degradar a matriz resinosa de cimentação sem danificar o dente. O laser de Granada de Ítrio e Alumínio dopado com Érbio (Er:YAG, 2940 nm) e o laser de Granada de Ítrio, Escândio e Gálio dopado com Érbio e Cromo (Er,Cr:YSGG, 2780 nm) emitem fótons absorvidos pela água e monômeros residuais do cimento resinoso. As cerâmicas odontológicas apresentam alta translucidez óptica nesses comprimentos de onda, permitindo a passagem da energia até a camada adesiva. O domínio da transmissão óptica, da duração dos pulsos e da dissipação térmica assegura procedimentos seguros e previsíveis.

Transmitância Óptica e Física das Estruturas Cerâmicas

A penetração da energia do laser de érbio através de cerâmicas odontológicas depende de sua composição microestrutural, densidade cristalina e espessura da peça. Cerâmicas vítreas, como porcelanas feldspáticas e dissilicato de lítio, apresentam elevada transmitância no espectro infravermelho médio. Em espessuras variando entre 0,5 e 1,5 milímetros, o dissilicato de lítio transmite de 40 a 60 por cento da radiação incidente de 2940 nm para a interface de cimentação. Já cerâmicas policristalinas, como a zircônia tetragonal estabilizada por ítria, promovem dispersão e atenuação luminosa acentuada devido aos múltiplos contornos de grão. Desse modo, o descolamento de facetas finas exige densidades de energia sensivelmente inferiores às necessárias para coroas posteriores de zircônia.

A reflexão na superfície cerâmica externa consome parte da energia aplicada. Superfícies cerâmicas polidas refletem menor quantidade de radiação do que superfícies rugosas ou oxidadas. Para maximizar a transmissão fotônica, o cirurgião-dentista deve direcionar o feixe de forma rigorosamente perpendicular à face vestibular da peça. Manter a inclinação de 90 graus previne desvios de refração óptica e garante a chegada da densidade de energia calculada ao cimento resinoso. Em restaurações espessas, a varredura contínua sobre a superfície evita superaquecimento localizado e fornece energia suficiente para amolecer a matriz de polímero adesivo.

Transmissão do laser de érbio, fotoablação do cimento e preservação pulpar
Figura 1: Estágios de descolamento com laser de érbio: transmissão da luz pela cerâmica, microexplosão fotoablativa da água no cimento, liberação limpa da peça e segurança biológica da polpa (< 2,0°C).

Degradação Fototérmica e Fotoablação dos Cimentos Resinosos

O processo de descolamento ocorre por meio de três fenômenos complementares: amolecimento térmico, ablação térmica e fotoablação. Quando os fótons de érbio atingem o cimento, moléculas de água residual e ligações químicas orgânicas absorvem a energia de forma instantânea. Essa absorção rápida provoca a degradação térmica das cadeias de metacrilato do compósito. O cimento resinoso passa de um estado vítreo rígido para um estado borrachoso flexível ao ultrapassar sua temperatura de transição vítrea.

Simultaneamente, ocorre a vaporização explosiva da água contida nos microporos do cimento. O vapor superaquecido expande-se violentamente na interface dente-restauração, gerando microfraturas ao longo da união adesiva. A pressão interna desfaz a coesão do cimento e solta a peça protética do esmalte condicionado. Quando as falhas adesivas se propagam pelas margens da preparação, a faceta ou o bráquete desprende-se com esforço mecânico nulo ou mínimo. Como a energia destrói seletivamente a resina, os prismas de esmalte permanecem preservados em sua integridade original.

Cinética Térmica Pulpar e Limites de Segurança Biológica

A preservação da polpa durante a aplicação do laser requer respeito estrito aos limites biológicos de temperatura. Estudos clássicos de Zach e Cohen comprovaram que uma elevação térmica intrapulpar superior a 5,5 graus Celsius provoca lesão tecidual irreversível em 15 por cento dos dentes hígidos, enquanto aumentos de 11 graus causam necrose total. Durante a irradiação com érbio, o calor difunde-se da cerâmica e da camada de cimento através da dentina em direção à polpa.

Para impedir aumentos térmicos perigosos, o operador deve calibrar a frequência de repetição, a energia por pulso e a proporção de spray de água e ar. Protocolos com Er:YAG utilizando energias de 200 a 350 milijoules em frequências de 10 a 15 Hertz, associados a refrigeração aquosa contínua, mantêm a elevação térmica pulpar abaixo de 3,0 graus Celsius. O fluxo de água resfria a superfície cerâmica sem prejudicar a transmissão dos pulsos energéticos de pico. Movimentos contínuos de varredura dissipam o calor superficial antes que ele atinja a câmara pulpar.

Protocolos Clínicos para Facetas e Dispositivos Ortodônticos

A execução do procedimento exige sequência clínica padronizada conforme o material a ser removido. Em facetas de porcelana, o profissional utiliza peça de mão sem contato a uma distância de 2 a 5 milímetros da superfície. O feixe óptico percorre a face vestibular em trajetórias horizontais ou circulares contínuas durante 60 a 90 segundos. Uma tração suave com espátula plástica ou ventosa detecta o instante de liberação adesiva. O profissional nunca deve realizar alavancas mecânicas forçadas, pois tensões desiguais podem fraturar bordas cerâmicas finas antes da completa degradação do cimento.

Na remoção de bráquetes cerâmicos monocristalinos ou policristalinos, a irradiação precisa solta a peça em 3 a 9 segundos por dente. A ausência de alicates mecânicos elimina forças de torção sobre o ligamento periodontal e impede fraturas de esmalte. Após o descolamento, remanescentes de resina amolecida sobre o dente são retirados com curetas manuais ou brocas multilaminadas em baixa rotação. O esmalte dental apresenta superfície lisa e periquimáceas intactas, dispensando desgastes abrasivos agressivos.

Vantagens Clínicas, Biológicas e Conservadoras

A técnica com laser de érbio oferece eficiência clínica superior e reduz custos operacionais em consultório. Facetas cerâmicas intactas podem ser recuperadas sem trincas para ajustes de cor, adaptação marginal ou intervenções endodônticas de urgência. Após a remoção, a peça cerâmica pode ser limpa, recondicionada com ácido fluorídrico, silanizada e recimentada imediatamente, evitando novos custos laboratoriais ao paciente. No paciente ortodôntico, a retirada indolor de bráquetes sem lascamentos preserva o patrimônio mineral dos dentes.

Pesquisas clínicas confirmam que o desprendimento assistido por laser reduz o tempo de atendimento em comparação ao desgaste com brocas rotatórias. A aceitação do paciente é elevada, uma vez que a abordagem sem contato extingue ruídos de vibração óssea e pressões mecânicas incômodas. O uso da tecnologia de érbio consolida uma odontologia preservadora fundamentada na biologia e na conservação tecidual. Com o avanço das cerâmicas translúcidas e o refinamento dos parâmetros de irradiação, a remoção óptica substituirá o desgaste rotatório como padrão de excelência na clínica diária.

Referências

  • Zach, L., & Cohen, G. (1965). Pulp response to externally applied heat. Oral Surgery, Oral Medicine, Oral Pathology, 19(4), 515-530.
  • Morford, C. K., Buu, N. C., Schneider, P. P., Finzen, F. C., George, R., & Goodis, H. E. (2011). Er:YAG laser debonding of porcelain veneers. Lasers in Surgery and Medicine, 43(10), 965-974.
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